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A verde faca de dois gumes

12/07/2010

Aldo Tolentino, advogado de meia-idade, arquitetou um crime perfeito. Assassinou a esposa, Maria Lúcia, e o amante dela, o sócio Marco Túlio; bolou um mirabolante mas plausível álibi; convenceu os policiais com a sua tese. Não foi sequer considerado suspeito pelos homicídios. Até aqui, a história vai bem.

Contudo, logo após o crime, o filho rebelde e fugido, Paulo Sérgio, vivencia aquela situação tão desastrosa: fez a coisa errada, na hora errada. Ao voltar para casa, Paulo encontra os corpos estirados no quarto. Pega a arma. Deixa suas impressões digitais. Solta a arma no chão.

A polícia o considera como principal suspeito. Aldo, desesperado, confessa a prática dos assassinatos. Mas o álibi foi tão bem construído, que, mesmo assim, os policiais não mudam de idéia. Na prisão, Paulo Sérgio acaba confessando o delito, e se suicida.

Esse é um minúsculo resumo do conto “O Outro Gume da Faca”, de Fernando Sabino. O que isso tem a ver com o que vou escrever agora? Tudo.

Eu quero falar sobre esperança. Ela está em nossa bandeira, no nome da sogra que nunca morre, na mente de todo mundo. Ela faz mover, nos dá inspiração, nos dá sentido à vida. Porém, e esse é o outro gume da faca, a esperança pode ter exatamente o efeito contrário.

Vejamos. A esperança de dias melhores nos acalenta e nos fortifica, para que lutemos por eles. Temos a absoluta convicção de que não há como haver melhoras, se nada for feito a respeito. Entretanto, quando temos esperança de que uma coisa do passado possa dar certo de novo, ela não nos deixa ir além. Ela tira a vontade de progredir, de querer saber e experimentar o que o futuro nos reserva de inédito, acreditando que o velho possa suprir nossas carências, mesmo que num prazo desconhecido.

Isto é: esperar por algo novo e vindouro é positivo. Esperar por algo velho e já passado, é abaixo de zero. Mas, por que haveria alguém que esperaria negativamente?

Por uma simples razão: ninguém conhece o futuro; todos sabem o passado. No desejo de evitar o maior número possível de dores, queremos acreditar que o que deu errado pode dar certo novamente, desprezando a ousadia de buscar algo desconhecido e amedrontador. Preferimos voltar e pegar a mesma sinuosa e esburacada estrada, esperando que, dessa vez, o pneu do carro não estoure, ao invés de pegar uma estrada desconhecida, cheia de possibilidades, que poderá te levar ao tão bem quisto destino (ou lhe furar outro pneu).

É essa dúvida que nos amarra à esperança negativa, e o nó somos nós próprios que fazemos.

Aldo Tolentino esperou de maneira negativa. Pensando poder restaurar sua honra e dignidade, matou sua esposa adúltera, juntamente com o sócio “amigo-da-onça”. Mas aí, algo de extraordinário aconteceu. Mesmo tendo feito tudo sob caminhos muito bem analisados e conhecidos, Aldo caiu na própria armadilha. E isso, ele não pôde prever.

Isso nos diz que, mesmo gabaritando nossos atos em guias já contruídas e conhecidas, o resultado deles nunca será o que esperamos. Até porque, se deu errado, queremos um resultado diverso, isto é, que dê certo. Aí, concluo que, mesmo esperando pelo passado, estamos projetando o futuro, que será quando o resultado dessa esperança irá ocorrer. E vejo que categorizar em esperança negativa e positiva é uma besteira, pois ambas são exatamente iguais. São, no fim, esperança de que, no futuro, tudo dê certo. Por isso que ela é como uma faca de dois gumes. Uma única peça. Dois fios de lâmina. E o mesmo fim: cortar.

Por isso que viver é difícil. Devemos tomar decisões diárias: no que eu vou ter esperança, hoje?

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