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Gay. Post por post.

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Pagando contas.

25/09/2010 , , ,

Neste exato momento, estou postando isto aqui da biblioteca da faculdade. Vamos então, à retrospectiva.

Ontem, depois da aula teórica da auto-escola, fui comer cachorro-quente com meus amigos. Cheguei em casa meia-noite.

Como tinha uma consulta marcada para o sábado bem cedo, coloquei o celular para tocar às 7:30. E, você sabe. Depois de uma semana exaustiva (e de ter ficado até tarde fora de casa), ter de acordar cedo no sábado é f*&#*$&#.

E quem disse que consegui dormir bem? Estava um calor danado, mesmo de noite, e os pernilongos não davam trégua. Acordei às 3 da manhã, pra passar um monte de Repelex, o que me fez pensar em duas coisas: ou o fabricante do repelente anda economizando no princípio ativo, ou então os pernilongos sofreram mutação genética, e estão 30 vezes mais resistentes.

O alarme do telefone tocou. Levantei com cara de grão-de-bico, humor de aspargo, bafo de repolho e cabelo de acelga. Fui colher a horta no banheiro.

Depois de lavar o rosto, escovar os dentes e ajeitar o cabelo, fui pra cozinha, comer um pedaço de bolo de cenoura light que minha mãe fez. Peguei um naco e fui comer enquanto mexia no PC da sala.

Nisso, minha mãe chega:

“Eita! Mas já tá aí no computador? Mal acorda e já fica aí na internet!”

Em seguida, chega meu pai:

“Ave! Mas já tá aí? Você tá louco, SG! Pára com isso! Você tem que se controlar, ficar mais sossegado!”

Então, respondi…

“Mas que coisa, hein? Vocês mal acordam, e a primeira coisa que fazem é ficar torrando o meu saco! Nem bom dia, nem nada, vocês…”

E blá blá blá…

Em certo momento da celeuma, meu pai dispara:

“Você acha que eu sou só um provedor, pra você, né? Só sirvo pra pagar as suas contas, né?”

Pra quê.

“Sim. Você só serve pra isso mesmo, pai. Aliás, anda cumprindo muito mal essa atribuição, viu?”

Vesti a jaqueta, peguei a mochila, as chaves e, enquanto saía para a minha consulta, finalizei:

“Vocês dão muita importância para picuinhas, e fazem questão de ignorar os problemas realmente relevantes”.

Problemas relevantes = minha homossexualidade.

Fui para a consulta. Com a psicóloga. Era o segundo exame psicotécnico da auto-escola.

E ela, seguindo o questionário, perguntou:

“E como é a relação entre você e seus pais?”

Respondi:

“Ma-ra-vi-lho-sa!”

Já me basta ter de enfrentar meus pais em casa. Ficar eternamente a pé é inaceitável.

Passei no exame psicotécnico. Já tenho saúde mental suficiente para usar um volante, um câmbio e os pedais do carro.

Cheguei em casa, e vi meu pai, sentado ao balcão da cozinha, com as mãos no rosto, e de olhos fechados.

A princípio, nem quis conversar. Não queria piorar as coisas. Mas como meu lado idiota estava aguçado, cutuquei:

“Cadê o fio da internet? Afe… pai, coloca de volta, por favor?”

“Depois do que me disse, você tem coragem de me pedir isso?”

“Puta que pariu, hein? Que coisa idiota de se fazer! Mas não seja por isso. Vou pra biblioteca e lá eu mexo na internet. Em paz.”

E então, cá estou, a postar isto aqui.

Eu já disse isto uma vez, aqui no blog, mas vale dizer de novo:

Enfim. Só sei que vivo num grande palco de teatro, atuando um personagem que finge estar de bem com os pais, estes, personagens que fingem estar de bem com o filho gay. Aliás, fingem que o filho não é gay.

Pai. Mãe. Amo vocês de verdade. Mas não aguento mais ser apenas mais uma conta mensal para pagar.

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Hey! Vai com um pouco de calma aí! Sei que os teus pais sabem de você e tudo mais. Mas você não precisa tratá-los dessa forma. Tem que pensar que é difícil igualmente para todos.
Por um lado eles não sabem lidar com a situação, afinal você é o único filho gay até agora, e por outro lado você tem os problemas da aceitação, e de certa forma, não consegue abrir o jogo com os pais, tornando-se imparcial em todas as tuas ações dentro de casa. Assim, não me impressiono quando li o que o teu pai disse, pois você parece-me que se colocou em uma posição que impede a aproximação deles.
Acredito que, no momento em que você resolver dizer para os teus pais o quão difícil tem sido para você conviver com esses problemas e não ter com quem contar ou desabafar, você dará uma abertura para um diálogo.
Dessa forma, creio que eles não precisarão chamar a tua atenção toda a vida para manter um vínculo familiar com você, apesar de ser super normal levar uma bela bronca dos pais de vez em quando… hahaha
Ademais, sei que todos tem vontade de ganhar sua autonomia para um dia sair de casa e cuidar do seu próprio nariz, independente da questão sexual. Agora, acredito que você não precisava ter respondido teus pais daquela maneira. Talvez um dia você saberá o que é administrar uma família.
Ao meu ver, você acabou por ferir o orgulho deles a ponto de fazê-los sentir que ainda não possuem tais condições, tanto em questões financeiras quanto educacionais. Basta colocar-se no lugar deles. O que você sentiria se ouvisse de um filho que “está fazendo tudo errado” e não dá abertura para uma conversa? Acredito que frustração seria a resposta.
Pois bem, essas questões são muito complexas e talvez tenha confundido um pouco as coisas ao longo do meu comentário. Espero também que não se ofenda com as minhas ideias, pois acredito fielmente no papel da família dentro da sociedade. Esta, que por sua vez, se vê em “papas de aranha” pelos acontecimentos modernos.
Um beijão

Tar

25/09/2010

Eu entendo (e sinto) que é igualmente difícil aos meus pais tratarem do assunto. Ninguém nasce preparado para ter um filho. Muito menos, um filho gay.

Não me ofendi, Tar, de maneira alguma, com o seu comentário, como sempre muito bem feito. Era justamente isso que procurei suscitar em quem lesse o meu post. Pode ter parecido que eu desejei estampar a cara dos meus pais como se fossem os grandes vilões da minha vida (e que, às vezes, acho isso mesmo). Mas não. Apenas quis desabafar algo que aconteceu (claro, sob o meu ponto de vista). Ponto. Eles podem estar errados, mesmo que justificadamente? Sim, eles podem. Eu estou errado? Com certeza. Não devia ter dito palavras tão rudes. E cruéis.

Mas todo esse impropério teve início há muitos anos. Diálogo é algo que inexiste, aqui em casa. E meus pais estão longe de terem polidez no tratamento com os filhos. Nem vou querer discorrer sobre episódios já passados… que compõem profundas cicatrizes no coração.

Enfim. Estou longe de ser perfeito. Também acredito que a família tem papel fundamental na sociedade. Mas é que chega uma hora em que o pote já está transbordando, para ambos os lados, e qualquer gota de discórdia já faz molhar o pano da mesa.

Ser pai é difícil. Eu não sei o que fazer para criar filhos. Mas sei muito bem o que não fazer, se, por algum milagre, tiver um. Ao mesmo tempo que eu deveria me colocar no lugar deles, para tentar entendê-los, eles também deveriam fazer o mesmo.

Acho que a solução, mesmo, é paz no espírito. É parar, pensar muito, perdoar as mágoas do passado. Renovar o coração. E recomeçar um diálogo sincero, respeituoso.

Vou tentar.

Obrigado pelo puxão de orelha, Tar. Um beijão.

SG

25/09/2010