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Gay. Post por post.

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Pais.

27/09/2010 , , ,

Então. Ontem, como já disse, fui ao teatro.

Com o meu pai (isso eu não disse).

Após pegarmos os ingressos, ficamos esperando a abertura do auditório, no hall principal. Nisso, passa um senhor de uns 50 e muitos anos. A primeira coisa que percebi foram as botas sujas de tinta. Pensei: “Poxa, mas quem vem ao teatro sujo de tinta?”.

“Tá vendo aquele senhor ali, SG? Então. Trabalhamos juntos lá na universidade. Ele é mais MacGyver do que eu. Sabe consertar e bolar as coisas como ninguém! Aprendi muita quebração de galho com ele!”

Após ter travado uma breve conversa com a recepcionista, esse senhor se vira e vê a presença do meu pai.

“Opa, Senior San! Quanto tempo! E aí? Aquele transformador de 100 watts ainda está funcionando (conheço esse transformador desde que me conheço por gente)? Olha que ainda tem garantia, hein?”

O senhor das botas pintadas continua:

“Ah, esse é o seu herdeiro? Opa! Tudo bem? Tá fazendo o quê?”

“Direito. Me formo neste ano.”

“Ih, Senior San, vai ter um ladrão na família? Vixe… japonês honesto vira engenheiro, químico, físico…”

[risada geral]

E conversa vai, conversa vem…

“… e aí eu tô acabando de voltar do novo consultório que comprei pra minha filha, como presente de formatura, lá no Boulevard Garden. Como eu tô aposentado, e os serviços só são permitidos entre as 8 da noite e as 6 da manhã, resolvi eu mesmo fazer a reforma do escritório. Fiz o mezanino em nogueira caramelo, instalei a escada em espiral…”

Aí entendi o porquê das botas manchadas. E das unhas sujas. A prosa continuou:

“… não, porque filhos sempre têm alguma coisa pra gastar dinheiro à toa. A minha filha não é mercenária nem nada, não faz questão de usar roupas de grife. Mas, quando o assunto é bolsa, aí ela não abre mão de etiqueta. Outro dia, estávamos passeando no shopping, e aí ela viu uma tal de Fendi. Acabei comprando a tal bolsa, com dor no coração! Então, ela foi toda toda pra faculdade, de bolsa nova. Depois da aula, ela voltou pra casa cabisbaixa… aí eu perguntei: ‘Ué, filha, porque essa cara? Ninguém elogiou a sua bolsa?’. E ela: ‘Só o César reparou na minha bolsa caríssima… as outras nem tchum!'”

Mais prosa, e o senhor conta uma passagem da infância da filha:

“Quando ela era mais nova, tipo uns 8 anos, ela fazia coisas só pra me testar, sabe? A gente sempre ia no drive thru do Mc Donald’s, e ela pegava o sachezinho de mostarda e lambuzava o banco do carro. Depois, virava pra mim e me falava se eu não ia falar nada sobre. Eu fingia que nem dava bola. Fiz assim por um par de vezes. Então, certo dia, eu disse: ‘Filha, se eu fosse você eu não faria isso’. Aí ela retrucou: ‘Mas, por que você não faria isso, pai?’ E então, eu respondi: ‘Porque esse carro, um dia, vai ser seu.’  Depois daquele dia, ela sempre me importunava, perguntando se não ia lavar o banco do carro.”

Ficamos ali, eu, meu pai e o senhor das botas pintadas, conversando, até as portas do auditório se abrirem. Ele se despediu de nós, pois iria sentar-se no setor “B”, e nós, no “A”.

Pude vislumbrar, concomitantemente, as duas realidades: a do meu pai, genitor de três criaturas “adoráveis”, magro, meio corcunda, quase para se aposentar; e a do seu antigo colega de trabalho, aposentado, pai de uma filha psicóloga, de unhas sujas (que tentava esconder, colocando as mãos nos bolsos da calça), dentes tortos e botas manchadas de branco. Mas pude ver, nessas duas figuras paternas tão sofridas, uma beleza indescritível, cristalizada nas rugas e nas histórias que cada um guarda em si, geradas pela árdua tarefa de criar os seus rebentos.  Percebi o tamanho do esforço do meu pai, em nos criar, nos educar, nos alimentar, nos vestir… E ali, numa conversa descompromissada, vi que a vida daqueles senhores encontrou o sentido nos filhos.

Ser pai não é fácil. Ainda mais, de um filho como eu.

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comments

Só queria dizer que acompanhei a situação com seu pai, do começo da briga até aqui, pelos posts. Ia falar alguma coisa, mas fui aguardando pra ver onde dava. Não posso falar nada, desconheço esse nível de relação. Espero que te seja satisfatória. Porque complicada eu sei que sempre é.

Eu não falo com o meu há vários anos, e nem tenho intenção de falar. Tampouco sinto falta. Não dele, pelo menos.
Seja lá o que houver de bom na sua relação com o seu pai, que perdure!

[j]

Joe

28/09/2010

Olá, Joe!

Obrigado pelos votos. Também espero que perdure o que há de bom entre ele e eu.

É complicado. Porque, mesmo quando meus pais erram, não posso fazer nada, não posso simplesmente pegar minhas coisas e ir embora.

O jeito é me acalmar, e analisar as coisas da maneira mais positiva possível. E aguentar até o dia da independência.

Um abraço!

SG

28/09/2010