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Te conto um conto.

22/10/2010

Este é um dos meus contos preferidos. Se tiver uns 15 minutinhos sobrando no seu agitado dia, aproveite!

Cego e Amigo Gedeão à Beira da Estrada

Por Moacyr Scliar

– Este que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?

– Não, Cego. Foi um Simca Tufão.

– Um Simca Tufão?… Ah sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina. Este que passou agora não foi um Ford?

– Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.

– Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe… Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos. É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?

– Não, Cego. Foi uma lambreta.

– Uma lambreta… enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta. Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo! Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião… Este que passou não foi um Mercedinho?

– Não, Cego. Foi o ônibus.

– Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim. Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?

– Não. Foi um Volkswagen 1964.

– Ah, um Volkswagen… Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças é muito boa. Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso. Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época já costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?

– Não, Cego, não foi um Candango.

– Eu estava certo que era um Candango… Como eu ia contando, na sexta, nem sabiam por onde começar. Eu ficava sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando… A gente pensa muito. De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia. Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a fazer. Mas este agora foi um Candango!

– Não, Cego. Foi um Gordini Teimoso.

– Eu seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De certo pensou: “Um cego? O que pode ter visto um cego?” Estas bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?

– Não, Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.

– Boa, esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o delegado. Perguntei: “Senhor delegado, a que horas foi cometido o crime?” “Mais ou menos às três horas da tarde, Cego” – respondeu ele… “Então” – disse eu. – “O senhor terá de procurar um Oldsmobile 1927. Este carro tem a surdina furada. Uma vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás, tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas”. O delegado estava assombrado. “Como sabe de tudo isto, amigo?” – era só o que ele perguntava. Este que passou não foi um DKW?

– Não, Cego. Foi um Volkswagen.

– Sim. O delegado estava assombrado. “Como sabe de tudo isto?” – “Ora, delegado” – respondi. – “Há anos que sento aqui à beira da estrada ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sei mais: quando o motor está mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e quinze.” – “Como é que tu sabias das horas?” – perguntou o delegado. – “Ora, delegado” – respondi. – “Se há coisa que eu sei – além de reconhecer os carros pelo barulho do motor – é calcular as horas pela altura do sol.” Mesmo duvidando, o delgado foi… Passou um Aero Willys?

– Não, Cego. Foi um Chevrolet.

– O delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma bolada de gratificação. Este que passou foi um Toyota?

– Não, Cego. Foi um Ford 1956.

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