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Solidariedade torrada.

05/11/2010 , ,

Sexta-feira, dentro de um ônibus em Sampa, no início da noite, um vendedor/pedinte entrou e começou a entregar canetas a todos os passageiros. Não era nada simpático. Esbravejava palavras de piedade, dizendo:

“Vocês não dão importância para mim; são arrogantes e não se importam com gente pobre como eu, que passa fome. Comprem uma caneta, para eu poder comprar alguma coisa pra comer.”

Me entregou uma caneta prateada. Daquelas bem simplesinhas, que de certo falhariam na hora de escrever. Ele foi até o fim do ônibus. Iniciou o retorno. E ele falando, numa mistura de piedade e indignação.

“Vocês têm alguma comida? Um resto de sanduíche? Qualquer coisa, eu vou aceitar… uma bolacha… estou com muita fome…”

Lembrei da torrada Bauducco que não havia comido durante o voo. Entreguei a caneta e a torrada. O vendedor simplesmente pegou esses objetos e rumou-se para a porta, sem agradecer. Também, pudera. Não comprei a caneta. E dei-lhe uma torrada.

Parênteses. Muitos podem me achar ridículo, eu pegando a torrada do serviço de bordo e enfiando no bolso. Há uma razão pra isso. Fico envergonhado em devolver comida oferecida e não ingerida. Não me sinto bem fazendo desfeita. Fecha parênteses.

Não comprei a caneta porque eu me fechei para essa mazela. Desejei não me envolver diretamente com isso, deixando de estender a mão a quem precisava. Ele precisava. De dinheiro, de comida e de um bom banho. Senti vergonha dos demais passageiros, também absortos em seus pensamentos, ignorando a presença falante e fétida do vendedor de canetas, no ledo pensamento de que eu estaria perdendo, ou me sujando, ao ajudar um pedinte. Não sei direito. Apenas senti um forte desconforto. Um constrangimento persuasivo.

Fiquei pensando nas palavras daquele vendedor de canetas. E cheguei à conclusão de que ele tinha toda a razão. Eu não tinha dado importância a ele. Fui arrogante e nem me importei com gente pobre como ele, que passa fome. Não olhei em seus olhos. Apenas senti o seu cheiro desagradável, virado para a janela. Não comprei a caneta, para que ele pudesse comprar algo para comer. Apenas dei uma torrada mequetrefe, insípida, seca, como se isso fosse um gesto de extrema caridade. Acabei considerando-o como um mendigo, e não como um vendedor (criativo e embaraçoso) de canetas.

Puxa. Se pago R$ 1,00 em uma rifinha de formatura, porque não paguei R$ 1,00 por uma caneta? Se eu não faço desfeita por uma torrada, por que recusei a caneta (tá certo que ela não me foi presenteada, mas o efeito é parecido)?

Pois é. Mais uma coisa para eu pensar. E mudar de atitude. Pelo menos, ele deve ter comido a torrada.

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comments

Dói né?Quando eu penso,não somente sobre humanos, mas nossa arrogância em geral, com tudo e todas espécies, me dá uma vertigem.
Na próxima vida, venho repolho!
bjo

Pimenta

05/11/2010

Também tenho essa dificuldade quando algo do tipo acontece, mas acredito que não é por arrogância. É simplesmente um tapa na minha cara por não dar a devida importância as coisas que tenho e que existem pessoas com dificuldades bem maiores que as minhas. Esse contraste gera um grande constrangimento para mim.
É claro que também existe esse outro lado (de se sujar) que você cita no texto. E infelizmente, acho que isso acontece com a maioria. Apesar de que 1 real não empobrece ninguém e uma torneirinha e um álcool resolvem se você se sujar. Afinal de contas, microorganismos patogênicos estão por toda a parte e ninguém gosta de ficar doente.
Por fim, sempre precisamos rever nossos conceitos, mudar nossas atitudes e tentar fazer a diferença com esses pequenos gestos: ajudar o cara das canetas ou até mesmo ceder seu lugar no ônibus para alguém que realmente precise (coisa que tenho visto cada vez menos).
Um bjão

Tar

05/11/2010

Sim. Sempre temos que nos aprimorar, não só por fora, mas sobretudo por dentro.

Quanto ao “sujar”, me referi a isso mais num sentido metafórico, do que propriamente biológico. Mas também fico com esse receio… rsrsrs.

Beijos!

SG

05/11/2010

Pelo menos o sentido biológico serve como uma desculpa. Agora, o metafórico não tem nenhum sentido pois ajudar os outros faz bem dentro da gente. Posso nem sempre conseguir fazer por conta dessas barreiras, mas tento fazer a diferença às vezes >.<

Tar

05/11/2010

Cara não sei se vc le comentarios novos em post antigos, mas por via das dúvidas vou comentar aqui: a musiquinha do scatman fica grudada na cabeça msm. Eu nem lembrava dela, mas agora voltou com força total huahau. E se eu tivesse 1 real compraria a caneta.

garoto do interior

06/11/2010

Olá, Garoto do Interior!

Leio todos os comentários sim! No WordPress, há uma seção exclusiva para a leitura, edição, moderação e exclusão de comentários. Então, fico sabendo de todos, sejam em posts antigos ou novos!

Fico contente que você compraria a caneta. Vou seguir seu exemplo, daqui em diante!

Abraço!

SG

06/11/2010