/SOUGAY

/SOUGAY

Gay. Post por post.

You can scroll the shelf using and keys

すべての原点 (A origem de tudo)

10/11/2010 ,

A figura acima representa o navio “Buenos Aires Maru”. Foi nele que meu avô, junto com toda a sua família, embarcou no porto de Yokohama, em 1932. Na época, meu ditian tinha apenas 13 anos, e um metro e trinta de altura.

Nascido em 18 de dezembro de 1919, no vilarejo de Biei, perto de Asahigawa, na Província de Hokkaido, meu vô vivia na zona rural, em uma casa simples, cercada por neve metade do ano. O Japão passava por dificuldades econômicas, e o governo incentivava a emigração. Foi quando resolveram sair de lá e vir para o Brasil.

O navio partiu do porto de Yokohama e fez inúmeras paradas pelo caminho, incluindo lugares como Cingapura e Port Elizabeth (África do Sul). 45 dias após a partida, o “Buenos Aires Maru” atracava no porto de Santos.

De lá, meus antepassados montaram em um trem, rumo ao interior de São Paulo. Trabalhariam nas plantações de café da Fazenda Junqueira, em São Joaquim da Barra. O choque de culturas foi impactante. Na primeira vez em que meu avô se deparou com um sanduíche de mortadela, ele jogou o recheio fora, pensando que estivesse estragado. Em outra ocasião, quando os patrões lhes deram pães caseiros, aqueles grandões, o pessoal os usava como travesseiros… Mas com o tempo, todos se acostumaram com a inédita cultura ocidental. E passaram a adorar pão com mortadela.

Após muito trabalharem, meu avô e seus familiares conseguiram comprar um sítio, em Santópolis do Aguapeí, ainda no interior de São Paulo. Era época da II Guerra Mundial. Meu avô sempre foi um amante das letras. Adorava escrever poesias. Adorava ler. Então, como na época era proibida a divulgação de notícias sobre o país inimigo (já que o Brasil estava do lado dos EUA), meu vô passava a madrugada escutando, baixinho, o rádio sintonizado em uma estação japonesa, e, cuidadosamente, transcrevia todas as últimas notícias. Depois, caprichosamente, fazia cópias com papel carbono, e as distribuía pela vizinhança oriental.

Casou-se com sua primeira esposa. Teve um filho. Ela, infelizmente, morreu quando meu tio ainda era pequeno. E então, meu vô casou-se com minha vó, irmã da falecida, naquele odioso sistema de casamentos arranjados…

Anos depois, resolveram se mudar para o interior do Paraná. Inajá foi a cidade escolhida, a qual tornou-se berço da maioria de seus filhos, incluindo meu pai. Plantavam café. Colhiam muito. Levavam a produção frequentemente, no caminhão GMC da família, para o porto de Paranaguá, numa época em que estradas de asfalto eram lendas.

Mas aí, tempos depois, a ferrugem aplacou a plantação cafeeira. E aplacou também a motivação do meu avô em continuar com a vida no campo. Vieram todos para Maringá, em 1968. Com o dinheiro resultante da venda do sítio, compraram duas casas na cidade. E o pai do meu pai, antes cafeicultor, tornou-se, além de auferidor de alugueres, vendedor de apólices de seguro. E depois, taxista.

A vida ainda era difícil. O dinheiro não era farto. Mas, mesmo assim, todos os filhos foram para a faculdade. E graças a isso é que eu hoje existo, pois meus pais se conheceram na UEM, enquanto estudavam. Meu pai formou-se em engenharia química. Minha mãe, em educação física.

Meus avós não tinham uma relação muito amistosa. Brigavam muito. Meu avô reclamava que minha avó era muito implicante. E minha avó reclamava que meu avô era muito muquirana. Ambos tinham razão. Ambos também não a tinham. O fato é que chegou uma hora em que a convivência tinha se tornado insuportável. E então, minha batian mudou-se para um apartamento, e meu ditian permaneceu na casa. E nós, filhos e netos, revezando finais de semana entre os dois domicílios.

Entretanto, guardo excelentes memórias de ambos. Minha vó, hipocondríaca que só ela, sempre vinha em casa, e trazia doces feitos por ela: manjus, dorayakis e botamochis. E meu vô, sempre vestindo luva apenas em uma das mãos, também me ganhava pela boca. Sempre me dava salgadinhos, balas, doces. E sempre vinha de mãos ocupadas da padaria. Lembro muito bem ele, chegando em casa, dizendo:

“Olha, SG, tem pôn, viu? Tem morutadêêêra, mussarêêêêra, viu? Bassutante, viu?”

Ah… saudade dos dois… Mas este post é dedicado ao meu avô. Então, vou falar mais dele. Gomennassai, batian.

Meu avô tinha uma caligrafia impecável e invejável. Fazia aqueles hieróglifos com uma destreza e suavidade indescritíveis. Mas, depois de um tempo, ele começou a recortar papel sulfite e a fazer centenas de bloquinhos. Encheu um armário inteiro com aquilo. Descobrimos o porquê. Ele fazia aquilo para exercitar as mãos, e assim, não perder a destreza para escrever e para as demais atividades manuais.

Outra paixão, para não dizer mania, eram os cactos. Todo santo dia, ele plantava cinco (ou mais) novos vasos. Ao longo de cinco anos, ele conseguiu colecionar mais de 5 mil cactos! Eram muitos cactos. Muitos mesmo. Davam a volta na casa inteira. Tínhamos que doar vários exemplares para abrir espaço. E todo dia, sempre avistava meu ditian agachado, fuçando a terrinha nos vasos pretos, retirando brotos e os inserindo nos novos invólucros.

No fim da tarde, depois de fazer os bloquinhos, de caminhar, de plantar cactos, de assistir lutas de sumô na NHK e de aguar a sua hortinha, ele sentava naquelas cadeiras de varanda, feitas de fios de plástico, pegava um banquinho e colocava os pés sobre ele. E assim permanecia, de olhos fechados, pensando.

Sempre calmo. Nunca alterou a voz para nada. Ria com facilidade. Mas também era sisudo. Compenetrado. Perspicaz. Me recordo de uma briga feia que tive com meu pai, aqui em casa. Meu vô presenciou tudo. Em silêncio. Terminada a briga, ele veio até mim e disse:

“Non pode brigar assim com papai non, viu?”

Só isso. Ele só me disse isso. Mas foram palavras marcantes, que carrego comigo para sempre. Palavras ditas de forma suprema. Incondicional. Pura.

Quando meu avô materno morreu, em fevereiro de 2007, meu ditian daqui, já bastante combalido, fez questão de prestar as últimas homenagens. Pediu uma prancheta, um envelope e uma caneta. Na cama, levantou-se com dificuldade. Eu segurava-lhe a prancheta. E ele, esforçando-se tremendamente para escrever kanjis. Sua mão tremia. A respiração era difícil. Seu semblante era comovente. Pela primeira vez na vida, sua caligrafia não era impecável, nem invejável.

Em março daquele ano, chegava ao fim a jornada daquele garotinho japonês de um metro e trinta de altura, aos 87 anos, em virtude de uma pneumonia. Mas os seus escritos, os cactos, os bloquinhos de papel, e suas poucas palavras, ainda existem.

おじいちゃん、すべてに感謝します。

Advertisements

Nem pense em sair daqui, sem comentar!

Please keep your comments polite and on-topic.

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

comments

OMG! Fiquei emocionado com a história! Parabéns SG mais uma vez pelo seu talento! (Agora com as palavras!)

Tar

10/11/2010

Obrigado, Tar! Beijão!

SG

10/11/2010

Tbm fiquei emocionado. Vejo q vc admirava/gostava muito do seu avô. Em um comentário eu perguntei se vc era descendente de japoneses, mas vc nao respondeu (acho), agora minha dúvida foi respondida. Vejo tbm q vc gosta de músicas japonesas (de outro post), vc q cresceu nos anos 90 tbm é fã de manga e anime? (eu era mais, hj nem tanto, mas vários amigos e meu irmao ainda amam).

garoto do interior

10/11/2010

Olá, Garoto do Interior!

Puxa, verdade. Nem respondi sua dúvida sobre minha origem… mas agora, ela já está respondida! Foi mals.

Eu não sou muito fã de animes e mangás, mas já li e vi muita coisa desse tipo. Meus primos dizem que eu sou japonês só por fora, porque eu não tenho meu lado “otaku” muito explícito! Huahuahua!

Abração!

SG

10/11/2010

Afinal, as memórias são o mais importante. Legal ver esse carinho que você tinha pelo seu avô. O meu está morrendo e eu não consigo sentir um pingo de compaixão…

Um beijo SG!

Lobo

10/11/2010

Olha, estou arrepiado até agora com seu texto.

Como não tenho o que dizer, vou agradecer, apenas.

Fez o meu dia mais feliz.

Obrigado

Gui

11/11/2010

Primeiro, obrigado por visitar meu blog, adorei o comentário, volte quando quiser…
Achei esse post lindo, vc se expressa muito bem… Voltarei mais vezes!!

Até o próximo

Júlio César Vanelis

12/11/2010