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Gay. Post por post.

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Eu não posso (nem consigo) abrir mão de ser gay.

30/11/2010 , , , , , , , ,

Ficar em casa no fim de semana é uma tortura. No meu caso, ao contrário do que se poderia esperar, a “união familiar” me faz mal. A minha relação com meus pais não poderia estar pior. Eles não me suportam, e eu nem eles. Embora partilhemos o mesmo teto e as mesmas paredes, nós não partilhamos o mesmo mundo, a mesma realidade. Eles ficam isolados, nos seus respectivos mundos, e eu, no meu. Eles fazem vistas grossas para a minha homossexualidade,e para todos os graves problemas particulares meus, e eu fico aqui, no meu lado da linha divisória, tendo o teto e as paredes como companhia.

Exagero dramático meu? Não. Apenas licença poética.

Tento iniciar um desabafo com minha mãe (com quem tenho mais proximidade), dizendo que estou infeliz com a faculdade, que não sinto vontade de fazer nada, que estou muito ansioso… mas não logro êxito. Ela, como sempre, dá um jeito de subestimar meus “probleminhas”. E de mudar de assunto.

Meu pai vive implicando com as minhas atitudes. Quando sento-me no sofá e, inconscientemente, fico com as pernas cruzadas, logo recebo um esporro para descruzá-las. Quando, por desleixo, acabo deixando o cabelo crescer demais, já recebo “elogios” de que sou a sósia da minha avó. Isso sem falar quando coloquei brincos…

O negócio está feio. Os exemplos acima foram as partes mais suaves. E estou de mãos atadas. Quero muito sair de casa. Contudo, não estou disposto a cair no mundo com uma mão na frente e outra atrás. Precisarei delas para me defender. Inegavelmente, ainda preciso do apoio dos meus pais (ainda bem que pelo menos o mínimo eles estão dispostos a me oferecer). Não posso ser ingrato, a ponto de não reconhecer que meus pais estão cumprindo com o seu dever de criar os filhos e não deixar-lhes faltar amparo financeiro. No entanto, não é só disso que um filho precisa. Não é só de comida, teto, cama, roupa lavada e dinheiro que um filho precisa.

A comida pode ter queimado um pouco. O teto pode portar uma goteira ou outra. A cama pode estar um tanto bamba. A roupa pode ter uma mancha de alvejante. O dinheiro pode não ser farto. Ainda assim, eu sobrevivo. Mas o amor, o amor de pai e de mãe… essa coisa indescritível não. Não consigo viver feliz sem isso. O amor de pai e de mãe não poderia ser maculado de nada. Deveria ser algo supremo, acima de qualquer outro sentimento existente.

Não serei hipócrita em dizer que meus pais me amam agora do jeito que me amavam quando era criancinha. É duro ter de confessar isso, mas eu sinto que o amor deles por mim está tão maculado quanto o meu por eles. Está avariado pela imensa distância entre nós, distância essa construída durante os últimos 9 anos, desde que eles descobriram que eu era gay, e desde que eu descobri que tinha pais preconceituosos, frios, insensíveis e incompreensivos.

Nada nesse mundo, absolutamente nada nesse mundo fenomênico, paga um sorriso e um abraço de um pai orgulhoso. Nada nesse mundo pode suprir o aconchego acolhedor e protetor de um abraço materno. E essas coisas tão boas, tão… sublimes… que eu preciso tanto, neste momento… eu não tenho mais.

E o mais difícil de tudo, é saber que eu não quis que isso acontecesse. Eu não optei por ser gay. Porque, levando-se em conta a minha atual e difícil situação, se eu pudesse escolher entre ser gay e ser plenamente amado por meus pais, obviamente, teria escolhido a segunda opção. Tal qual um surdo não pôde ter escolhido entre a surdez e a audição, ou um cego entre a escuridão e a visão, eu não pude escolher ser de um jeito diferente do que sou.

Não quero dizer que ser gay é como portar alguma deficiência física. Longe disso. Mas a homossexualidade é algo com a qual todas as pessoas deveriam saber conviver e respeitar. E, do mesmo jeito que os surdos e cegos devam ser acolhidos sem distinção, os gays também deveriam ser. Principalmente, por seus próprios pais. Mas a realidade é muito diferente do ideal.

Se eu fosse independente, cuidasse do meu próprio nariz e não tivesse de prestar contas a ninguém, ou se meus pais me aceitassem como sou, certamente pediria para nascer gay em todas as minhas futuras encarnações. Mas, como ainda não conquistei minha autonomia, e meus pais não me aceitam como sou, a homossexualidade para mim, hoje, é um obstáculo para a minha felicidade.

Entretanto, tenho ciência de que ser gay é o meu único meio de ser plenamente feliz. Eu sou e serei do jeito que sou. Custe o que custar. Custe o que estiver custando. Se meus pais não me aceitam… paciência. Não posso fazer nada a respeito. Ficarei muito triste, como estou agora. Mas, lá no fundo, eu tenho a certeza de que essa tristeza, apesar de muito forte, um dia irá se desfazer.

Embora eu não saiba quando serei feliz do jeito que sou, eu não posso abrir mão do meu único meio de ser feliz.

Eu não posso (nem consigo) abrir mão de ser gay.

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E nem deve.

Isso com a família, acontece. A gente tem muito essa visão da família feliz que muitos fazem questão de mostrar, e a TV faz questão de mostrar, mas a verdade é que é tudo muito relativo. Eu tento não pensar nisso. Ocupar minha mente. Ajuda a desestressar.

Um beijo SG

Lobo

30/11/2010

Voce finaliza o texto corretamente: essa tristeza vai passar, um dia voce vai se ver livre desse martirio.
dificil mesmo é existir essa coisa de familia feliz. eu nao falo com meu pai há varios anos, mas tambem nao o vejo, pois nao mora conosco. porem tambem nao falo com meu irmao, que dorme no quarto ao lado, é um puta imbecil e faz questao de me prejudicar sempre que tem a chance. nao é facil. mas eu penso à frente.
aproveite o apoio financeiro dos seus pais, mesmo que seja pouco, e busque carinho e conforto de quem está disposto a te dar. nao se apegue a uma ideia de que pais devem amar os filhos, sabe. eu desencanei há muito tempo, desconstrui dentro da minha cabeça essa imagem de que familia tem que ser unida, porque a minha simplesmente nunca foi. infelizmente, mas é uma questão de imagem ideal vs. realidade. se seus pais nao te amam assim, entao procure alguem que vá te amar. enquanto isso, nao se sinta mal por continuar sob o teto deles, vivendo do dinheiro deles, porque é bem essa a obrigaçao deles enquanto seus pais, já que eles se recusam a oferecer seu afeto, e como você disse, não te restam opções, é deles que você ainda precisa depender. entao dependa do dinheiro deles, mas não do amor. busque o amor de quem te ame. busque um amigo, um primo, um cachorro, que seja! é melhor do que buscar uma coisa de uma fonte que já secou. ok?

beijo, se cuida. e FORÇA!

[j]

Joe

30/11/2010

Olha cara, eu nem sei o que te dizer…
Tenho outros amigos que passam pela mesma situação que você. A indiferença é algo muito cruel nesses casos, é quase uma violência. Não sei se teria a mesma coragem que você se não tivesse o apoio que tenho…
Mas não desista, cara. Eu acredito nas pessoas, que as pessoas mudam, crescem, se tornam mais compreensivas. O mundo transforma as pessoas. Vc não pode abrir mão de ser gay, é a sua natureza. E é muito provável que um dia seus pais entendam isso!!!

De qualquer jeito cara, Boa Sorte!!! Felicidade, que você merece… Nenhuma tempestade é fácil, mas também não é eterna…

Um beijo e um abraço de amigo! Até o próximo…

Júlio César Vanelis

01/12/2010

Moço, (Preciso vocativo mais adequado)
Me racha o coração ver que essa situação ainda se repita … vivi isso aconteceu comigo há 12 anos, achei que com todo avanço ja tivesse melhorado. 😦
Aqui, aprendi a aceitar parte e apenas parte da inadequação da minha familia e vou conquistando palmo a palmo meu espaço … Lá em casa, apenas a terapia de familia foi capaz de dobrar a minha mãe … mas só em parte … vez o outra vem um patrulhamento … Eu? Com meu jeito exuberante de ser digo: Vai tomar no C***. Mas isso so foi possivel depois de 12 anos de Carreira e autonomia financeira … mas tenha fé, a sociedade vai andando, mas pra mim fez toda diferença, aprender a me acolher e a me amar, aceitando a limitação da minha mae e da minha familia em me entender como sou … Mas com o tempo melhorou muito … Me admiro … como alguém possa falar sobre algo q fere tão profundamente de forma tao limpa, clara e quase poetica … Não, vi um porra, um fodase, nada … A cada post eu fico mais de queixo caido … Sinto q nao fui o unico e q nao estou só … Torço para q tudo melhore, q logo arranje um emprego escandalo e tudo vai melhorar … Bjs e melhoras …

BsVox

04/12/2010

Socorr … mil erros de portugues no meu texto … isso que dá ser alfabetizado em Guarany…

BsVox

04/12/2010