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Gay. Post por post.

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Meu sonho era ser caminhoneiro.

12/12/2010 ,

Há um tempinho atrás, postei algo em homenagem ao meu avô paterno. Hoje, quero escrever um pouquinho sobre outra pessoa também muito querida, que fez parte da minha história: meu avô materno.

A foto acima foi tirada pelo meu pai, acho que em 1994, durante as férias de começo de ano. Esse garotinho, que quase não aparece direito através do para-brisa, dentro desse caminhão Ford, sou eu, com 6 anos de idade. Repare no para-choque: há um papel sulfite mal pregado. Era eu tentando simular uma placa.

Pois nessa época, meu sonho era ser caminhoneiro. Passava a tarde inteira, fingindo estar transportando caixas de frutas até o CEASA de São Paulo, tal qual fazia meu avô. Além desse Ford, ele tinha uma Scania 113 laranja (que ele não me deixava brincar), e dois Mercedes 1113, um verde e outro azul (que ele também não me deixava ficar fuçando a cabine). Só nesse velho Ford amarelinho mil-novecentos-e-guaraná-de-rolha que meu vô me deixava brincar. Ainda bem!

Meu vô sempre lutou para viver. Desde cedo, aprendeu a se virar sozinho. Aos 16 anos, fugiu de casa, devido a brigas com o seu pai. Despediu-se da mãe, que ficou em prantos, e rumou-se para São Paulo. Mas, no meio do caminho, numa conversa, ficou sabendo que o norte do Paraná era uma região promissora, e que necessitava de mão-de-obra. Mudou seu destino para Maringá.

Mas, ao chegar aqui, em 1954, deparou-se com uma cidade ainda em construção, repleta de poeira e barro vermelhos. Desistiu de ficar aqui, ao perceber que lhe seria um tormento lavar as roupas. Acabou indo para Nova Esperança, uma cidade próxima, mas com solo arenoso, e não barroso. Começou a trabalhar como mecânico, em troca de casa e comida.

Ficou três anos em “New Hope”. Até que, após receber a notícia de que sua mãe estava doente, e sofrendo muito pela sua ausência, decidiu retornar ao lar.

Começou a trabalhar junto com seu pai, nos negócios da família. Casou-se. Teve o seu primeiro filho. E depois, surgiu minha mãe, em 1960. No ano seguinte, vítima de meningite, o irmãozinho de minha mãe morreu. Nesse mesmo ano, tinha nascido o seu segundo filho homem, que chamarei de Hiro, só para facilitar a compreensão do texto.

No entanto, uma tragédia aconteceu. Numa tarde, Hiro e seu primo, ambos na época com dois anos de idade, estavam brincando próximos das rodas da caminhonete. Meu avô não percebeu isso. Nem poderia imaginar que eles estariam ali. Ligou a caminhonete, engatou a ré e… o resto, você pode presumir…

Os dois foram levados às pressas ao hospital. Mas, infelizmente, não resistiram. Nem consigo imaginar o tamanho e a duração do sofrimento decorrente desse episódio.

Como se não bastasse, em 1963, sua esposa, durante o trabalho de parto de outra criança, acabou falecendo, em função de uma eclampsia.

Não sei como meu avô conseguiu suportar tamanhos sofrimentos, em tão curto espaço de tempo.

Mas ele foi levando a vida, da melhor forma que podia. Casou-se novamente, teve outras filhas (minhas tias queridas). Continuou trabalhando muito, cuidando dos negócios, e se embrenhando em outros, como o comércio de cereais, frutas e hortaliças. As coisas relativas ao trabalho estavam indo muito bem.

Comprou o primeiro caminhão. Viajava para Rondônia, pegar sacas de feijão, e ia até São Paulo, revendê-las. A coisa dava tanto lucro, que meu avô conseguiu galgar uma posição de destaque, na cidade. Tinha fazendas no Mato Grosso. Sítios, chácaras e casas. Realizou vários desejos, como comprar um Ford Galaxie, um carro caro da época. Comprou outros caminhões, e passou de caminhoneiro para dono de uma transportadora.

Mas…

Num negócio arriscado, meu avô fez um financiamento, para o plantio de café, no Mato Grosso. Porém, o preço da saca despencou. Para tentar saldar a dívida, vendeu parte da fazenda. Mas, como o pagamento se deu de forma parcelada, e, a cada mês que passava, a dívida aumentava, em razão dos juros altíssimos…

Faliu.

Voltou, pois, à vida de caminhoneiro. Conservou alguns caminhões. Reduziu o número de empregados. E foi levando. Tropeçou outras vezes. Outros infortúnios ocorreram. Em 1997, um motorista seu envolveu-se em um acidente, no qual uma pessoa morreu. A responsabilidade pelo ocorrido recaiu sobre as costas (e as finanças) do meu avô. Os negócios não iam bem. Até que não deu mais para continuar. Não dava mais, também, para ele continuar dirigindo tanto. Todos os caminhões foram vendidos. Inclusive o Ford amarelinho da foto lá de cima.

Mas, apesar dos tantos dissabores que a vida lhe trouxe, meu avô sempre era uma pessoa alegre. Gostava de conversar bastante! Tinha muitos amigos. Ser neto dele era credencial para inúmeros privilégios na cidade. Era uma pessoa engajada com a colônia japonesa local, tanto é que foi presidente da Associação Nipo-Brasileira durante 15 anos. Incentivava o esporte, levando a gurizada para os eventos de atletismo e baseball, nas cidades vizinhas. Cantava muito bem, ganhando vários concursos de karaokê.

Era também muito religioso. Lembro que, quando eu era criança, dormia numa cama que ficava bem do lado de dois altares. E, pela manhã, acordava ao som dos cânticos budistas que meu vô entoava. Não falhava uma manhã sequer. Acredito que foi sua fé que o fez suportar todas as dificuldades pelas quais passava.

Além de religioso, era bastante, digamos assim, malandro… Certa vez, acho que em 2004, fomos buscar iscas de pesca, num rio da região. Na volta, estrada vazia, meu vô ofereceu o volante.

“Mas, ditian, eu não tenho carteira… e se o guarda pegar?”

“Ah, não esquenta, não. Se o guarda parar a gente, a gente estaria ferrado do mesmo jeito, porque a minha tá vencida…”

Aceitei. Quase atropelei um senhor de carroça. Meu avô e eu levamos uma bela bronca da minha vó (que, na verdade, não é, mas a considero como legítima, vez que não tive oportunidade de conhecer a mãe da minha mãe).

Outro episódio que me lembro, muito engraçado, foi aqui em Maringá. Não sei o que fomos fazer, mas resolvemos sair para andar pela cidade. Emprestei-lhe um chinelo Rider e saímos. Você sabe que chinelo Rider é horrível – dá chulé e dá bolhas. Deu que meu vô não aguentava mais andar, de tanta dor que sentia nos pés. Fomos a um supermercado, no meio do caminho, e ele comprou um par de Molecas (huahuahuaha!) para conseguir terminar o trajeto até a minha casa.

Sua última paixão era o gateball. Até construiu um mini-campo no quintal da casa, para treinar. Acordava às cinco da manhã, todos os dias, e ficava lá, treinando. Minha avó não gostava do barulho irritante que o taco fazia quando batia nas rígidas bolas. Mas aturava. Tanto treino surtiu efeito. Em 2005, foi escalado para a Seleção Brasileira de Gateball, na categoria Sênior. Até viajou para Assunção, no Paraguai, para participar de uma espécie de Copa do Mundo de Gateball. Não ganharam o campeonato. Mas ganharam experiências ímpares.

Em 2007, num fim de semana, eu estava na casa do meu avô paterno. Meus pais haviam saído para caminhar no parque, e eu fiquei lá, assistindo TV. O telefone tocou.

“Oi, SG! Tudo bem? Aqui é o ditian. (pausa) Então, a mamãe está? (pausa) Ah, tudo bem. Então, avisa a todos aí que eu estou indo para São José do Rio Preto, fazer a cirurgia do coração… mas tá tudo bem comigo, vai ser uma coisa bem rápida. Tá bom? (pausa) Então tá bom. Um abraço, SG, fica com Deus. Tchau.”

Eu tinha certeza de que ele estava bem, pois semanas antes, tinha nos visitado, aqui em Maringá. Veio dirigindo 450 km. E, ainda, ele estava indo para Rio Preto submeter-se a uma ponte de safena, dirigindo! Acreditava mesmo que tudo iria ocorrer bem.

Mas não foi o que aconteceu.

Em pleno carnaval de 2007, meu vô morreu. Viajamos pela madrugada, para chegar ao velório, feito na sala de jantar da casa da minha vó. Desolador ver o sofrimento dela, e a comoção da minha mãe e das minhas tias, que presenciaram o duro processo pós-cirúrgico do meu ditian e que, naquele momento, viram que os seu esforços  e preces não tinham logrado o êxito esperado.

Aquela tinha sido minha última conversa com ele.

Carreguei um pouco o caixão, mas não aguentei o peso. Logo veio alguém para continuar a carregar. Meu avô foi uma pessoa muito querida. Tinha muitos amigos. O cemitério lotou-se de gente. Fizeram discursos. Aplaudiram-no. Despediram-se, pois, derradeiramente.

A figura do meu avô me serve de exemplo. Exemplo de como um homem deve ser. Amigável. Solidário. Perseverante. Honesto. Simpático. Engraçado. Esportista.

Me ensinou também que não se deve exagerar na costela assada e na manteiga…

Obrigado, ditian.

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comments

que história linda.

vc sabe q isso dá um filme, né? e um filme interessante.

tantos elementos da nossa cultura brasileira. e como eu me surpreendo quando vejo que tb existem elementos da cultura asiática.

fiquei bastante emocionado.

Antonio de Castro

12/12/2010

Texto lindo mesmo. Trágico, por que é a vida né? Na morte ninguém escapa. Agradeça sempre ao seu avô por essa herança de vida que ele deixou pra você. A cultura japonesa, as virtudes, os olhos puxadinhos e o cabelo liso!

Thiago

12/12/2010

Muito linda história SG! Por isso que sempre bato o pé quando o assunto é família. Ela nos serve de exemplo e apoio em muitos momentos da nossa vida. Basta pensar o quanto nossos avós tiveram que batalhar para terem sustento e dignidade.
Nossa! Acho que nem tenho tantos problemas assim! =D

Tar

12/12/2010

Cara, posso dizer que seus textos em homenagem a alguém são simplesmente fantásticos? Eu fico chocado com sua sensibilidade pra escrita. De verdade.

Obrigado por me dar a oportunidade de ler isso.

Tocante demais.

Gui

12/12/2010

É muito bonito esse sentimento que você tem pela sua família. Posso ver o tanto de amor que você colocou nesse post, emocionante, de verdade

Um grande abraço… Até o próximo post

Júlio César Vanelis

12/12/2010

Quando eu era pequeno, meu sonho era ser bombeiro! hahaha

E molecas são super-confortáveis tsá? :p

Faz parte, essa coisa das pessoas acabarem partindo. Não tem hora nem lugar, apenas fatos. Faz bem colocar pra fora isso de vez quando. Nos ajuda a não esquecer.

Um beijo SG!

Lobo

13/12/2010

Com um exemplo desse daí em sua vida, não precisa de muita coisa. Eu não conheci meus avôs. Você teve uma grande sorte de não apenas ter tido, como também de ter um tão especial. E são nessas pessoas que devemos espelhar nossas vidas, não é mesmo?

Beijo!

Três Egos

14/12/2010

Quanta sensibilidade e emoção na escrita, SG! E meus parabéns pela linda história. Conheço pouco da cultura asiática, mas admiro muito.

E que exemplo de vida foi e é teu avô. E que bom que você pode guardar e partilhar momentos tão bons quanto este…

Mas fiquei na dúvida: este post tem relação com o “desisti de desistir”? As lembranças e o que você aprendeu com seu avô, que nunca desistiu, apesar das diversas dificuldades, contribuíram para você também não mais desistir?

Um beijo sincero!

in.Constante

14/12/2010

Sim. Tem a ver, sim. Não só nesse momento, mas meu avô tem me inspirado em muitos outros momentos da minha vida.

Um beijo sincero, também!

SG

14/12/2010

Até certo ponto, a história foi surpreendente, mas pena que seu avô veio a óbito… E realmente, os idosos são tão cativantes, conhecidos, populares e amigos, e os velórios lotam, lembro do velório do meus avós, a casa lotou, a rua cheia em horario de pico, enfim, sabemos qdo somos queridos na hora da morte…
mas o que me identifiquei com esse post, é o fato de que sempre sonhei em ser caminhoneiro, viajar, conhecer vários lugares…ms fui crescendo e vendo que nao tenho dom, até porq não sei trocar um pneu de um carro, imagina de um caminhao… Meu pai sempre me xinga d incompetente, mas…nem tudo eu entendo….

Ro Fers

16/12/2010

bela história me emocionei eu vi respeito vi lágrimas

marcedo

04/11/2012

Belíssimo post. Tocante, bem escrito e sincero. E, sendo justamente sincero, me deixou com vontade de ter conhecido seu ditian, mesmo que apenas para um papinho durante a tarde, tomando xícaras de chá. Uma das maiores tristezas da vida e’ o fato daqueles que nos criam e protegem, nossos pais e avos, vão embora antes de nós. Não que isso seja ruim, pois a perda de um filho e’ um grande sofrimento, independente de sua idade ou de quem ele era em vida. Mas da um aperto no coração saber que e’ impossível te-los a vida inteira. Pra mim, a perda dos avos gera muito sofrimento, porque além de serem as primeiras de nossas vidas, são pessoas que apenas nos amaram, sem precisar impor regras e limites. Não tenho quase nenhuma memória ruim dos meus três avós ainda vivos.

Se eu tivesse a paciência e a dedicação para escrever um blog, acho que escreveria um post similar sobre minha avo paterna. Em janeiro deste ano, ela completou 80 anos, e mora sozinha. Seu marido morreu antes que eu pudesse conhece-lo de fato. Quando cantei o parabéns pra você, me veio a mente a idéia de que não a terei para sempre. Por isso, ligo para a velhinha mais de uma vez por semana, ainda vou aos cinemas com ela, teatros e livrarias, e abro, todos os dias, os obituários do jornal, para ler as mensagens de luto e me preparar para o futuro. Pelo menos uma vez antes que chegue a hora do adeus, quero dizer que a amo.

E também que gostaria de ter conhecido meu avô, que, se tiver tido metade da coragem e persistência do seu, ja me deixaria muito orgulhoso.

Gabriel

31/07/2013