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Gay. Post por post.

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Férias interrompidas.

15/12/2010 , ,

Era para estarmos, neste momento, curtindo um dia sossegado na praia. No entanto, algo interrompeu nossos planos originais.

Escrevi o texto a seguir ontem de madrugada, enquanto fazia companhia para minha mãe, no hospital. Leia-o na totalidade, para entender tudo.

Vou dar um tempinho aqui no blog, para reorganizar as ideias e as minhas coisas. Mas prometo que volto muito em breve.

Um grande beijo,

SG.

__________________________________________________________________________________

Foi tudo muito rápido.

Acordamos cedo, por volta das cinco da manhã. Começamos a carregar o carro e a pegar as últimas coisas para a viagem. Uma vez acomodadas as bagagens no porta-malas e no bagageiro de teto, entramos em nosso automóvel e rumamos para a rodovia BR-376. Praia de Caiobá, no município de Matinhos. Seria onde passaríamos 22 dias de férias, retornando apenas depois do ano novo.

Não queria fazer essa viagem. A relação com meus pais estava extremamente delicada e tensa. As brigas eram constantes. Lembro que, no dia anterior à viagem, havia discutido mediocridades com minha mãe. Também havia resmungado com meu pai, o fato de nós irmos sempre à mesmíssima praia, há mais de quinze anos. Disse também que achava enfadonho viajar com eles, e que estava desesperado para ganhar autonomia financeira e viajar sozinho.

Mas, enfim. Não tive alternativa senão me juntar a todos e curtir a nossa rotineira viagem de fim de ano para o litoral paranaense.

Meu pai estava ao volante. Eu, de carona, na dianteira. Minha irmã na parte traseira esquerda, minha mãe no meio e, em seguida, meu irmão no canto traseiro direito do carro. Em todas as viagens da família, costumo me sentar na frente, por duas razões: sou alto; e sirvo como um co-piloto, ajeitando a quantia certa para os pedágios, ou atentando-me para as sinalizações, ou trocando os CDs do rádio.

Começara a chover. Chover muito. A pista estava exacerbadamente encharcada. Meu pai, que já não é de correr, diminuiu ainda mais a velocidade de nosso hatchback. Mantínhamos uma distância mais que segura dos veículos à frente. Ligamos os faróis e as lanternas de neblina. Aumentamos a frequência dos limpadores do para-brisa.

Às nove e quinze da manhã, a 70 quilômetros por hora, entramos em uma curva suave à direita, em declive.

Mas o carro não respondia aos manuseios do volante. Começou a aquaplanar. Meu pai girava o volante para a direita, mas o carro continuava a pender para a esquerda, indo em direção à pista contrária.

Avistei um caminhão Mercedes-Benz vermelho, aproximar-se. Instintivamente, com a mão esquerda, tentei ajudar a esterçar o volante ainda mais para a direita.

“Ai meu Deus! Não vai dar! Não vai dar!” – disse, enquanto via a imagem do caminhão cada vez maior.

O carro, desgovernado, atingiu o eixo traseiro do Mercedes. Senti um forte impacto. Ouvi um barulho estridente de metal se retorcendo como papel, e vidro estilhaçando. O para-brisa tornou-se opaco, em função dos trincos extremamente ramificados. O carro rodou uma vez, até parar, no meio da estrada, totalmente destruído.

Olhei para meu pai, depois para os ocupantes de trás. Tratei de tirar meu cinto. Saí do carro, abri a porta traseira, desatei os cintos dos demais e os ajudei a sair do veículo. Meu pai saiu pela porta do passageiro, vez que a sua estava emperrada. O motorista do caminhão chegou correndo: “Nossa! Que loucura! Vocês estão bem?” Rapidamente, fomos ao acostamento.

Vi nosso Volkswagen Gol prateado atravessado no meio da pista, com a frente irreconhecível. Um pouco acima, o caminhão vermelho sem o eixo traseiro. No chão, centenas de estilhaços e pedaços de plástico do carro, bem como o emblema “VW” junto com o que sobrou do para-choque dianteiro. Nosso bagageiro de teto voou 30 metros abaixo. Fui lá, junto com o pai, pegar uma lona, no escopo de abrigarmo-nos da chuva gelada.

Perguntei se todos estavam bem. Meu irmão deu um mau jeito no ombro direito. Minha irmã, no esquerdo. E minha mãe sentia fortes dores no abdômen, em razão do tranco causado pelo obsoleto cinto de dois pontos. Meu pai estava com a testa sangrando e com a mão direita quebrada. Eu estava fisicamente bem. Não sofri um arranhão sequer.

Esperamos pelo carro de resgate, que chegou dez minutos depois. Nos esquentamos. Respondemos às perguntas de praxe. Fornecemos nossos dados pessoais. Minha mãe acabou conduzida para um hospital da região. Minha irmã a acompanhou. Pensei em ir junto, mas meu pai estava sem condições de, sozinho, lidar com os trâmites do acidente. Reputei que minha mãe estava bem encaminhada, e seus ferimentos não eram tão graves. Ficamos, então, eu, meu pai e meu irmão, no local do acidente.

Antônio, o caminhoneiro, não sofrera nada. Casou-se no sábado agora, e, ao invés de viajar em lua de mel, acabou tendo de entregar cestas de natal para uma rede de farmácias. Coincidentemente, teria de entregá-las em Maringá. Seus planos foram interrompidos. Por nós. Disse que, assim que o caminhão fosse consertado, iria vendê-lo, e parar de trabalhar no ramo. E, por uma triste coincidência, ele não havia renovado a apólice do seguro.

Telefonei para a seguradora do carro. Foi-nos fornecido um guincho e um táxi para nos levar de volta para casa. Ainda, tivemos de contratar outro guincho, por nossa conta própria, para rebocar o caminhão vermelho até Curitiba, sua cidade de origem. Nosso seguro cobriria as despesas com os reparos do Mercedes-Benz Accelo 915-C.

Resolvidas as chatices burocráticas, finalmente, rumamos para Apucarana, cidade na qual minha mãe fora hospitalizada. Estava acamada, muito abatida, recebendo soro, mas estava bem. Tinha feito vários exames, e nada de anormal fora constatado. Por recomendação médica, ficaria em observação por uma noite. Fiquei, então, junto a ela, no hospital. Meu pai e meus irmãos voltaram para Maringá.

E as horas, que antes passavam rápido, em meio a toda a confusão, agora passavam muito lentamente, no hospital. Sentei-me numa poltrona, próximo à maca. Ajudei minha mãe a se alimentar. E lhe fiz companhia. Mexi um pouco no notebook. Continuei a leitura de um livro. E, lá pela uma hora da manhã, dois enfermeiros, providencialmente, me trouxeram uma poltrona reclinável e mais confortável. Consegui, pois, dormir um pouco.

De manhã, liguei pro meu pai. Disse-lhe que ela teria alta somente à tarde. Um tempo depois, recebemos a visita de uma funcionária encarregada a ajustar os procedimentos do seguro DPVAT, para o custeio dos cuidados hospitalares. À tarde, meu pai veio nos buscar, junto com meu tio. Assinados todos os papéis, finalmente, voltamos para casa. As férias, pois, tinham terminado. Antes mesmo de começarem.

Não adianta, agora, ficar especulando hipóteses em que se poderia evitar todo o incidente. Poderíamos, sim, ter trocado os pneus, mesmo que eles não estivessem carecas. Poderíamos, sim, ter trocado de carro e comprado um modelo mais moderno e equipado, com freios ABS, controle de tração, controle de estabilidade e airbags. Poderíamos, sim, ter diminuído a velocidade para 40 quilômetros horários. Todavia, essas representações mentais não mudarão o resultado, que, como já dito, poderia ter sido muito pior, caso, por exemplo, caíssemos na ribanceira de 5 metros, à beira da pista. Ou se batêssemos no caminhão frontalmente. Ou se acertássemos em cheio uma das árvores das margens. Enfim. O que importa é que ninguém se feriu gravemente.

Se você for viajar de carro, verifique os dispositivos do veículo, como freios, amortecedores e pneus. Tome bastante cuidado ao dirigir, principalmente sob chuva. Meu pai não corria, apesar de que, agora, me convenço de que nós tínhamos o dever de estar ainda mais devagar, quase parando, até. O carro estava em boas condições, com os freios e as suspensões em dia, embora tivesse constatado que os pneus, ainda originais, estavam no seu limite de usabilidade segura, mesmo em conformidade com os regulamentos. A estrada era pedagiada e muito bem conservada e sinalizada. Mesmo assim, derrapamos e colidimos contra um caminhão. O poder da água sobrepujou nosso poder de controle. O carro simplesmente deslizou sobre a pista molhada, na direção onde a força centrífuga indicava. Não duvide que isso não possa acontecer contigo.

Depois desse desastre que poderia ter tido piores resultados, percebi que não vale a pena brigar com ninguém, por frugalidades. Descobri que bens materiais não possuem tanto valor quanto aquele que costumava avaliar. Descobri também o quanto amo meu pai, minha mãe e meus irmãos. Senti também a solidariedade das pessoas, mesmo sendo desconhecidas. E vi, literalmente, que nossas vidas podem acabar num piscar de olhos. Como quase acabaram, naquela curva em declive, numa manhã chuvosa de dezembro.

Ah.

E se antes eu apenas acreditava, agora, eu tenho absoluta certeza.

Deus existe.

________________________________________________________________________________________

Perdoe-me pelo texto muito extenso. Mas é que precisava desabafar isso com você.

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comments

Querido,
Experiências como esta, mesmo que indesejáveis, fazem-nos refletir sobre o quanto nossa vida é preciosa aos outros, a nós e a Deus.
Certa vez quase morri afogado, num acampamento da igreja. Cheguei a desmaiar e lembro-me de pouco antes disso pensar na minha família, com a qual minha relação sempre foi (e é) delicada.
Renasci com anseios maiores do que os que existiam em mim antes: servir.

Obrigado por dividir conosco sua história. Esta sua experiência, digo com certeza, foi com Deus, e deve ser estendida ao dia a dia.

Um abraço, boas festas. Volte logo.

Thiago Carlos

15/12/2010

Merda acontece.

Daqui, tudo que eu posso fazer e desejar que tudo fique bem por ai. Que bom que todos saíram relativamente bem do acidente. Tome o tempo que for, respire. Porque essas coisas não são nada fáceis… mesmo.

Um beijo SG!

Lobo

15/12/2010

Que bom que nada grave aconteceu! Agora só resta vocês descansarem e aproveitarem as férias, sim, podem não viajar, mas talvez estarão mais unidos. E cuide bem da sua mãe… rs

Beijo!

Três Egos

15/12/2010

Eu comecei a ler o texto e a medida que as linhas eu descia, mais me emputecia com a situação. Tenho um ódio mortal do azar… Se eu pudesse, voltava no tempo e matava Murphy, antes que ele anunciasse sua lei…
Mas depois dos últimos parágrafos eu fiquei muito feliz de saber que ninguém se feriu gravemente. A possibilidade do pior acontecer passou muito de raspão no carro de vocês, e sabe-se lá porque, seja a graça de Deus ou apenas sorte, todos estão vivos, salvos e inteiros.
Fico triste pelo prejuízo, mas feliz pela sua família.

Thiago

15/12/2010

SG, a cada linha que lia, mais aflito ficava… até que descobri que, ainda bem, nada de grave aconteceu a sua família.

Mas como muitas situações ruins podem ter conseqüências boas, quem sabe agora a sua relação com seus pais muda um pouco… pelo menos foi isso que o final do texto me fez pensar.

É clichê, mas sempre dizem que a iminência da morte nos faz reavaliar alguns conceitos nossos de vida…

Tudo de bom e até breve!

in.Constante

15/12/2010

Puxa kra, q lamentável, sem palavras pelo ocorrido, pois pelo q li, vocês devem ter até pesadelos com o fato né, afinal além de abala-lo fisicamente, psicológicamente nao deve ser nda fácil…
Mas graças a Deus todos estão bem…. É lamentável esses acidentes de transito, afinal quantas noticias nao vemos nos jornais nos quais mtas familias, crianças são vitimas fatais de acidentes….
Que Deus abençoe todos…

Ro Fers

16/12/2010

Nossa, quando comecei a ler esse post e vi as fotos, meu coração quase sai pela boca, mas graças a Deus vocês estão bem. Mas não fica triste não, tudo na vida tem um propósito, talvez Deus estava tentando te mostrar algo.

Bjos e mtos abraços pra vc
Fica bem 🙂

Rodolfo Gaspar

16/12/2010

Nossa cara… Que barra que você passou, eu morro de medo de acidentes. Você teve uma postura bastante controlada e sensata. Que bom que ninguém se feriu gravemente. Mas essas coisas acontecem, e que bom que aconteceram sem gerar perdas maiores.

É uma pena que vc tenha que ficar um tempinho sem postar, mas agente entende xD

Um beijo SG, melhoras para a sua mãe… Até o próximo!

Júlio César Vanelis

16/12/2010

Rapaz,

Li seu post muito apressadamente e com muita apreensão.
Fiquei imensamente feliz em saber que todos estão bem.
Te digo sinceramente. Deus Existe e Ele te ama mto e do jeito q você é.
Eu acho q frente a esse susto, espero q todos vcs se entendam mais e mais a cada dia. Esses desentendimentos acontecem em todas as famílias … Da ultima vez q briguei com a minha mãe, por ser gay. Fiquei bravo, falei tudo que sentia. Tres minutos depois de desligar. Liguei e disse a ela: Mãe, ja passamos por muita coisa. Não concordo com suas posições, talvez a senhora não me entenda, mas eu te amo muito e vamos superar tudo isso.
Bjs, melhoras para a sua mãe.

BsVox

18/12/2010

SG, querido, estou profundamente feliz que isso tenha acontecido e não tenha gerado maiores problemas.

É sempre bom receber carinho, não importa de quem.

Gui

18/12/2010

A última frase é do outro comentário. Hahahaha

Gui

18/12/2010

Fico feliz que tudo terminou bem. Tenho acompanhado seu blog a menos de uma semana, e o acho muito bem escrito e criativo. Em busca de incentivo e novas ideia, encontrei seu blog. É muito bacana você abrir-se para nós, leitores. Tenho periodicamente problemas também com o meu pai, e você me fez lembrar das viagens que fizemos com ele dirigindo.
Obrigado e que tudo continue bem.

Cássio

19/12/2010

Olá, Cássio! Fico muito contente que você tenha gostado do blog!

Eu é que agradeço pelo prestígio.

Um grande abraço!

SG

19/12/2010

Espero que o trauma passe logo, sei que a cena tem o poder de permanecer vívida na memória por um bom tempo; e que todos fiquem bem tambem.
Que bom poder analisar o saldo positivo desse acidente, as reflexões que ele te permitiu fazer. é assim que eu tenho tentado seguir, buscando alguma coisa boa de todas as desgraças, fracassos e merdas que me acontecem, ao invés de apenas repudiá-las.
e é isso. faz parte da vida, ne? vai se o carro, ficam lições importantes, e o valor que se dá à figura mais ampla torna-se maior.
boa sorte, torcendo pra que coisas ruins dêem um tempo e fiquem algumas rodadas sem jogar.
=D

beijo

[j]

Joe

26/12/2010