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Sobre Sabino, Bombons e Compassos.

20/01/2011

Quando me sento defronte o computador, me dispondo a escrever algo, não consigo pensar em nada. Aliás, na verdade, penso é em coisas demais, o que não me permite criar o foco necessário para desenvolver uma ideia. Os lampejos de inspiração me aparecem quando menos espero: durante uma caminhada à padaria, ou durante a malhação na academia, ou mesmo enquanto estou usando o vaso sanitário.

Pois deitei-me na cama, levando comigo um livro de Fernando Sabino (As Melhores Crônicas – Ed. Record), e, após concluir a leitura iniciada no fim de semana passado, agora, meia-noite e vinte e cinco, sinto vontade de escrever algo. Me vem à cabeça tecer apenas uma prosa, deixando que as ideias fluam por si.

O jeito Sabinístico de escrever é peculiar a Fernando, e igualmente cativante. O seu modo preciso, satírico, irônico, técnico e elaborado em descrever situações corriqueiras, mas expressas num detalhismo sutil e tocante, desdobram fielmente faces da natureza humana. Ler seus romances e suas crônicas me trazem um prazer inigualável. E tamanha inspiração que mal consigo aproveitá-la, de tão arrebatadora que me vem.

Não foi à toa que Fernando fora agraciado com o prêmio Machado de Assis da ABL, em 1999, pelo conjunto de sua obra.

Ao ler “A Última Crônica”, a derradeira da compilação feita pela Editora Record, lembro-me de uma ida ao supermercado, num passado da minha infância, junto com meu pai.

Recomendo-lhe que leia essa crônica. Dá uma vasculhada no Google.

Nem me recordo do que fomos comprar no pequeno supermercado perto de casa. Talvez porque fomos apenas pegar coisas comuns, como pão, leite ou ovos. Que seja. Mas o fato é que, na fila do único caixa em serviço, à nossa frente havia também pai e filho, com suas poucas compras. E então, o pai pega um bombom Sonho de Valsa, e o dá para o filho, após notificar o caixa para que registrasse o doce na nota da compra.

“É o aniversário dele.” – diz ao caixa, orgulhoso, o pai.

Tive vontade de chorar. Aniversário do garoto, e o que ele recebe de presente é um bombom que, cá entre nós, não tem nada de sonho, muito menos de valsa. Sim, presumo ser aquele chocolate de R$ 0,25 (na época, era isso que custava) o seu único presente, haja vista todas as circunstâncias que prescindo em esmiuçá-las. OK. Vou esmiuçá-las: o pai, com o sapato sujo de restos de cimento, camisa com inúmeros buracos; o filho com a camiseta desbotada e gola esgarçada, calçando singelos e sujos chinelos de dedo. Uma presunção juris et de juri foi a que fiz, do alto da minha experiência e perspicácia dos meus 11 anos.

Dias atrás daquele episódio, havia comentado, debochadamente, com uns amigos do colégio particular em que estudava, sobre o que havia ganhado de presente de Natal: um compasso. Isso mesmo, um compasso. Admito que não era um compasso qualquer: era profissional, daqueles utilizados por projetistas, engenheiros e arquitetos. Mas, no fundo, era um compasso. E que criança de 11 anos gostaria de ganhar um compasso de Natal? Queria era um jogo novo de PlayStation, ou um novo conjunto de Lego. Pois esse era o fundamento da minha indignação.

Que fora destruída, extirpada, esmigalhada, após a cena do supermercado.

Até hoje, sou lembrado como o garoto que ganha compasso de Natal. No entanto, sempre que isso me vem à mente, lembro do garoto que ganha Sonho de Valsa no aniversário.

E me convenci do quão sortudo eu era. E de quanta inveja eu tive daquele garoto, que ficou extremamente feliz com o que ganhara, e eu não, com o meu compasso. Mas a cena mudou meu jeito de lidar com a situação, e o compasso acabou me servindo bastante nas aulas de desenho geométrico, que eu passei a adorar. Com o bônus de eu poder me gabar perante meus coleguinhas riquinhos, com seus compassinhos infantis mequetrefes, duros de abrir e imprecisos de girar, e eu, agora orgulhoso, com o meu Trident profissional com dois tipos de agulha, pernas estensíveis e mecanismos sofisticados de abertura, fazendo o movimento de fazer círculos tão suave, preciso e prazeroso como passar, em uma quente fatia de pão, manteiga Aviação em temperatura ambiente.

A propósito, corrigindo, em tempo, minha prepotência em desdenhar tão sublime doce da Lacta, o Sonho de Valsa é o meu segundo bombom que mais gosto. O primeiro é o Ouro Branco.

E, como não posso me esquecer de deixar aqui mais uma simples homenagem a quem me inspira sorrateiramente, meu autor favorito é Fernando Sabino.

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comments

pra quem tem como musa Sabino, não poderiamos esperar texto de menor qualidade.

FOXX

20/01/2011

Nossa, vc tbm é um ótimo cronista… Queria eu ter um compasso da Trident Profissional, kkkk. Cheguei a ter um, do modelo mais simples, sem grandes mecanismos, mas com uma precisão muito boa. Mas no meu caso era necessário né, já que eu usava para fazer projetos de casas e edifícios.
Eu ainda não li nada de Fernando Sabino, mas tenho vontade de conhecer sim…

Um grande abraço, rapaz… Até o próximo

Júlio César Vanelis

20/01/2011

Farei o comentário mais bocó, mas também adoro manteiga Aviação em temperatura ambiente!

Eu também tinha um desses! Aliás, não tinha… eu achei ele no porão aqui de casa. Muito provavelmente seria do meu avô, mas como ele não reclamou a posse… Não sei que destino esse compasso tomou. Fui uma criança mimada, fazia minha mãe comprar aquelas caixas de lápis de cor da Faber-Castell de 48 cores, sendo que ela vivia apertada com as dívidas e aquilo custava uma fortuna. Um mês depois metade dos lápis já tinha sumido.
Foda né?

NÃO TENHAM FILHOS – essa é minha dica.

Thiago

20/01/2011

Primeiro, bom saber que vc lê Sabino. Este livro de crônicas está na lista de próximas aquisições.

E gostei muito da crônica. Tbm me fez lembrar de algumas cenas minhas que ganharam novo significado com o tempo. E viva a relatividade.

Um bjo grande.

Ah, qdo criar coragem e vir pro Rio, ou pelo menos qdo começar a planejar a viagem, me avisa, tá? 😉

in.Constante

21/01/2011