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Gay. Post por post.

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Violência.

24/04/2011

Meu pai já foi violento. Hoje, não é mais. Tempos difíceis, os da minha infância. Talvez porque, naquela época, estávamos passando por um momento extremamente delicado. Estávamos pagando as prestações do nosso atual apartamento, e usávamos a poupança para complementar as contas da casa. A construtora estava demorando demais para entregar as chaves. E a poupança, a cada mês, murchava-se. Não que isso justificasse agressões físicas e morais que sofri. Mas ajudam a explicar tudo.

Lembro do dia em que disse a meu pai que queria desistir das aulas de futebol do colégio. Na longa discussão, acabei dizendo que fui forçado a fazer futebol (a verdade é que desejei fazer, mas para agradá-lo, e não por minha causa). Disse que odiava ir às aulas. Disse que detestava futebol. Aí, no calor da contenda, meu pai, furioso, foi à cozinha, pegou uma faca de açougueiro, me pegou pela gola da camiseta e me jogou no chão. Eu, estirado, assustado, fiquei imóvel diante da ameaça, vendo a ponta da faca próxima do meu peito. Os olhos do meu pai fumegavam. Seu rosto transparecia uma raiva que nunca tinha visto antes.

Embora a faca não tivesse rompido um milímetro da minha pele, carrego em mim a cicatriz daquele dia. E até hoje, não consigo acreditar que meu pai tivesse tanta raiva de mim daquele jeito. Não tive coragem de repartir esse fato com ninguém da minha família. Sinto vergonha daquele fato. Faço isso aqui porque estou, teoricamente, revestido pelo meu pseudônimo (para alguns, não, né?). É um fardo que transportarei para qualquer lugar que for.

E toda essa raiva foi porque ele sabia que eu era gay. O fato de eu ter dito que detestava futebol foi como um soco no estômago. Foi como se eu dissesse: “Eu sou viado!”. E isso, nenhum pai está preparado para ouvir de um filho.

Meu pai nunca mais tocou nesse episódio, muito menos desculpou-se pela ameaça. Mas eu não tenho mais tanta raiva dele por causa disso. Tenho sim, uma mágoa. Mas isso já faz tanto tempo (uns 10 anos), que a neblina do passado já consegue esconder muito das lembranças negativas.

O que me importa é o agora. E, hoje, meu pai está bem mais equilibrado. Tenho absoluta certeza: está equilibrado por minha causa. E também porque estamos numa fase financeira mais tranquila.

Porque eu garanto que, dentro dele, também há a cicatriz daquele dia.

Feliz páscoa para todos.

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comments

Existem episódios que mesmo as prévias são suficientes para nos marcar para sempre. Acho que a gente sempre leva o que há de melhor e de pior dos nossos pais.

Sorte, e azar, o nosso.

Gui

24/04/2011

Que história triste SG! Eu tbm sofri algumas agressões do meu pai, mas não foi com faca, qualquer dia te conto.
Feliz Páscoa!

Garoto do interior

24/04/2011

Meu pai é assim também. Não chegou a me ameaçar com faca, mas já me deu cada surra por motivo dúbio… Só sei que ele não mora em casa a 7 anos e acho isso ótimo. =)

E sobre cicatrizes, por piores que sejam os motivos delas existirem, elas nos ensinam muita coisa.

Bjo e abraço, o/

Jovem Urso

24/04/2011

É assim mesmo. Acho que a maioria das pessoas já teve que lidar com um pai ou uma mãe (muito) nervosos. Eu já apanhei da minha mãe de formas que me dá raiva até hoje lembrar, mas quando ela morreu eu preferiria sentir dez vezes a dor de um tapa, um chinelo voador ou um cabo de vassora a ter que me despedir dela pra sempre.
Eu nunca duvidei do amor da minha mãe – e também acho que você não deve duvidar do amor do seu pai – então esse tipo de lembrança acaba sendo muito ofuscada quando a gente faz o somatório das nossas relações com pai e mãe.
Até mesmo os pais mais covardes e desumanos tem uma parcela de perdão pelo fato de terem trazido a pessoa ao mundo.

Thiago

24/04/2011

esse é o problema, esse tipo de ameaça/violência familiar sempre deixa a vítima com vergonha do ocorrido. e o agressor costumar esquecer o que fez.

Foxx

24/04/2011

Tenho motivos para acreditar que ele não tem essa cicatriz.

Quem bate, esquece. Quem apanha nunca esquece.

Lobo

24/04/2011

Acredito que ainda é raro aqueles que não tem algum tipo de violência marcando sua vida, vinda de alguém da família.

O que importa, é não guardar rancor, nem tentar “dar o troco”, e vejo que você, felizmente, não tem isso como meta.

leo

24/04/2011

tb ja passei por uma dessas. e ja vi meu irmao passando pela mesma coisa.
fico feliz por sermos fortes!!

Cassio

24/04/2011

Sofri muito nesse sentido… Aliás, a primeira pessoa que me chamou de viado no mundo, foi meu pai. E o engraçado é a coincidência: exatamente pq meus coleguinhas da escola disseram q eu era o único aluno que não participava dos jogos! Feliz Páscoa! Bjos!

Jean Borges

25/04/2011