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Gay. Post por post.

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Clichês

30/05/2011

Os clichês existem porque se repetem. São inevitáveis, pois.

E, nesse sábado, enquanto passava a tarde morgando em casa, esparramado no sofá, assistindo “Drop Dead” na televisão, deparei-me com mais uma situação que peca em originalidade.

Nesse pouco mais de um mês que estou longe de casa morando sozinho, comecei já a perceber sentimentos que, enquanto morava com meus pais, estavam ofuscados por outros sentimentos mais marcantes, como rancor, raiva e ansiedade. Em outras palavras, nesse tempo em que pude tirar a intensidade do rancor, da raiva e da ansiedade, coisas boas afloraram novamente, como se fossem água limpa de uma mina assoreada.

 Reconheci, num estalo, o amor.

 O amor dos meus pais.

Reconheci o incomensurável esforço que eles tiveram comigo, nos últimos 23 anos. Um esforço previsível, quando observamos o briefing universal que traz as básicas instruções de como se criar um filho. E também um esforço imprevisível, quando analisamos as variantes que aparecem, quando esse filho revela-se gay, no decorrer de todo o processo.

Reconheci que, se não foi fácil e agradável para mim, não foi fácil e agradável para meus pais.

Quando luto contra minhas inabilidades para lavar o banheiro, lavar as minhas roupas, arrumar a cozinha e limpar a casa toda (cozinhar, felizmente, tiro de letra), percebo, na pele, todo o trabalho que minha mãe tem para criar seus rebentos e amparar o seu esposo. E vejo que eu não enxergava isso, algo tão rotineiro, mas com tanto significado. Ao contrário de mim, ela não faz tudo isso tão somente para si mesma. Faz isso pelos meus irmãos, pelo meu pai e, há até um tempinho atrás, fez por mim. Dá muito, mas muito trabalho, cuidar da casa.

Quando acordo cedo, todos os dias. Enfrento o frio e a garoa, que são tão comuns aqui em São Paulo. Trabalho o dia inteiro na empresa. E chego em casa exausto, querendo tirar o terno, a gravata e os sapatos com extrema urgência, percebo, na pele, todo o trabalho que meu pai tem para criar seus rebentos e amparar a sua esposa. E vejo que eu não enxergava isso, algo tão rotineiro, mas com tanto significado. Ao contrário de mim, ele não faz tudo isso tão somente por si mesmo. Faz isso pelos meus irmãos, pela minha mãe e, há até um tempinho atrás, fez por mim. Dá muito, mas muito trabalho, trabalhar.

E depois, tem todo o lance do filho gay. Um acontecimento que quebra todo o aspecto ordinário da rotina parental. Toda mãe aprende a cuidar da casa. Todo pai aprende a trabalhar. Mas ninguém ensina como lidar com um filho gay, assim como ninguém ensina a um filho gay, como lidar com os pais.

Apesar dessa natural desvantagem, meus pais fizeram o possível e o impossível, para lidar comigo. Tiveram noites de sono ceifadas, quando descobriram sites pornográficos de homens trepando, no histórico do computador. Quando me flagraram batendo punheta, com um vídeo em que um homem musculoso chupava deliciosamente o pênis de outro homem musculoso. Quando acharam dezenas de exemplares de saudosas edições da G Magazine. Quando souberam que eu estava namorando um cara. E quando perceberam que o seu primeiro bebê, descoberto do sexo masculino no ultrassom do quarto mês de gravidez, já começara a permitir que um homem lhe penetrasse.

Palavras um tanto impolidas. Mas que traduzem um pouco do impacto que meus pais tiveram comigo.

Nesse mês de “isolamento”, a distância tem fomentado meu lado autodidata. Desfocando os sentimentos ruins, e aumentando a nitidez de outras verdades, posso dizer que estou aprendendo a sentir muita saudade dos meus pais. Sinto vontade de dizer-lhes que fui um tolo, sendo extremamente reativo e brigando diariamente com eles. Percebo que razão para sentir raiva eu tinha. Entretanto, percebo também que não tinha razão para brigar.

Não sei se meus pais pensam o mesmo. Não sei se a distância também tem os ensinado a lidar melhor com um filho gay. Mas tenho uma imensa vontade de enfrentar oito horas de viagem, pegar um táxi da rodoviária, postar-me na portaria do prédio e digitar o número do apartamento, para ver, com outros olhos, aqueles que, com certeza, me olharam com muito amor. E que sofreram muito, comigo.

Quero dar um abraço e dizer: “Pai, Mãe. Me desculpem. Não por ser gay. Mas por ter descoberto só agora, o quanto vocês também sofreram”.

Eis o clichê: estou com vontade de dizer um “eu te amo”.

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comments

Que bom que vc tá percebendo isso agora. Sempre alerto meus amigos para esse detalhe qndo vão se assumir… Por mais diíficl que seja para nós, não é menos para os pais! Não sabia que a descoberta deles tinha sido tão dramática! Bjo!

Jean Borges

30/05/2011

Olha, sério, me emocionou. Eu mesmo não tinha percebido isso. Talvez faça o mesmo que você. Só que com 2 horas de viagem e sem taxi :).

Gui

30/05/2011

Quando li seu post fiquei muito emocionado. Me vi na mesma situação. Não me assumi para os meus pais ainda, mas sei que quando o fizer eles também sofrerão bastante. Concordo com a máxima que todo pai não quer ter uma filho gay; também não gostaria de ter, não pela condição homossexual, mas sim pelas inúmeras adversidades da vida que ele passaria por ser gay (e como já passei!!!).
Também estou muito ansioso para morar só e passar a sentir na pele a liberdade que você hoje sente. Sinto que somente serei realmente eu quando isso acontecer…

miguellito

30/05/2011

quando eu me afastei tb, e vim morar em BH foi q tb vi o amor dos meus pais.

Foxx

30/05/2011

Relato lindo SG. Eu tento sentir a mesma gratidão pelas pessoas (em geral) mas é difícil. Tem aquele ditado popular que significa muito: a gente só dá valor pra alguma coisa quando a perde.

Thiago

30/05/2011

Fico pensando se um dia isso pode vir a acontecer comigo tb. Até agora nada.

Um beijo SG

Lobo

30/05/2011

Então diga sim um enorme “eu te amo” para eles. Por telefone, por sms, por e-mail, mas diga.

Dá vergonhazinha no início, mas depois, é tão libertador, é algo que vc diz e vc melhora! Experimente!

Digo a minha mãe, a minha avó, às tias, aos irmãos… e é tão bom! Me deixa mais próximos deles.

E adorei seu texto, tão sincero, tão verdadeiro… como vc o é sempre nesse espaço aqui 😉

Eu ainda não contei à minha família (declaradamente, com todas as letras, não). Mas um dia o farei e já vejo hoje que eles precisam desse tempo de adaptação. Se eu levei anos pra me acostumar, eles tem de aceitar de cara? Se eu já pensei em me matar por ser gay, eles tem de encarar meu namorado com naturalidade? Não!!!!

Temos de entender isso e dar um tempo a eles. Claro que não pode ser o “pra sempre”. Eles tem de ter tempo para lidar com esse novo e, para eles, errado jeito de ser. Eles precisam de tempo para aprender a lidarem com o preconceito deles. E enxergar que nós, os filhos, somos muito mais que isso. E que, sim, continuaremos amando muito eles. Quer consigamos dizer isto ou não.

Tava com saudade de te ler… Que bom que voltou, por mais que aos poucos 😉

Um grande xêro!

in.Constante

30/05/2011

Oi SG, faz algum tempo que acompanho seu blog…digamos que me identifico com sua causa. Moro sozinho faz 1 ano e já tive minha dose de problemas com os pais. Só colocando aqui um parabéns pelo post, muito bom mesmo, sua frase de encerramento me fez chorar pensando que deveria fazer o mesmo.

Abraço

Mauricio

31/05/2011

opa, desculpa o treco repetido!

Mauricio

31/05/2011

Admiro vc!
Nem te conheço, mas sua sensibilidade, honestidade e inteligência são admiráveis.

Parabéns por vc, pela sua personalidade.

Beijão.

Mari

03/06/2011

@ todos

Muito obrigado. Muito obrigado, mesmo.

SG

12/06/2011

Gah… que lindo!

Você praticamente psicografou as mesmas descobertas que eu tenho tido por aqui, só que eu ainda não saí de casa (mas minha mãe anda trabalhando tanto, que é como se eu morasse sozinho e só a visse à noite, xD).

Abraços! o/

Jovem Urso

15/06/2011