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Gay. Post por post.

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Ele veio.

12/06/2011

Acordei às cinco da manhã. Tomei banho. Escovei os dentes. Me vesti. Saí à rua e a atmosfera do momento era preto e laranja. Laranja por causa do reflexo das luzes dos postes, na névoa densa que se espalhava pelo ar. E preto porque o Sol ainda não tinha saído da cama. Caminhei por uns 10 minutos, até chegar à estação de metrô. Entrei na composição, me sentei e aguardei a passagem por 15 outras estações, até chegar na Rodoviária do Tietê.

O ônibus atrasou um pouco, e aproveitei para tirar dinheiro no caixa eletrônico. Na volta, fui ao balcão de informações, perguntar sobre o local do portão de desembarque. Mas, antes que eu pudesse começar o trajeto recém aprendido, o celular toca.

“Oi, SG!”

“Fala, Jô! Onde você está?”

“Olhe pra trás.”

Com o telefone ainda no ouvido, girei meu corpo em 180 graus, e lá estava ele, de jaqueta jeans, cachecol xadrez, uma mochila nas costas e puxando uma mala com rodas. Nos abraçamos.

Fomos pra casa.

“Fique à vontade. O banheiro é logo ali, se você quiser.˜

Ele tomou banho. Fiquei no sofá, assistindo TV. Ao sair, uma névoa de vapor escapava pela porta aberta.

Nos abraçamos de novo. E nos beijamos. Beijamos muito. De um jeito que só Jô sabe fazer. Um beijo daqueles famintos, com uso abusivo da língua, e com interferências arrepiantes de fungadas no cangote. De início, fiquei bastante excitado. Mas aí, começaram a surgir todas as complicações da minha cabeça. E impedi que prosseguíssemos para algo mais… sexual.

Fomos passear por Sampa. Pegamos um ônibus. Descemos na Av. Roberto Marinho. Caminhamos por alguns minutos pelo bairro do Campo Belo, observando os recentes e chiques prédios residenciais imensos, construídos ali. Fomos para a Av. Vereador José Diniz e pegamos outro ônibus, rumo ao Shopping Ibirapuera.

A meu contragosto, que, habilmente, consegui esconder, fomos comer no Giraffas. Ele pegou um estrogonofe de frango, e eu um de carne. Mas não foi assim tão mal. Porque, naquele momento, estava mais interessado na prosa que estávamos tendo, e não nos pedaços insossos de carne.

Entre um assunto e outro, tratei de tirar algumas dúvidas.

“Então… falando nisso, vi certo dia uma publicação sua no Facebook, dizendo que, há exatamente um ano atrás, você tinha passado 12 dias em coma no hospital. O quê que aconteceu?”

E a resposta veio ao contrário. Primeiro, foram ditas as coisas que aconteceram. E só por último, a razão de tudo.

“(…) e tudo isso por causa de uma intoxicação.”

“Intoxicação? Comeu algo realmente estragado?”

“Não, não. Veneno, mesmo.”

Jô tinha tentado se matar. Entrou no carro, dirigiu até o lago de sua cidade, e envenenou-se. Um amigo, que telefonava para ele, mas não tinha resposta, resolveu sair em sua procura. Avistou o carro e constatou a situação.

“Aiai. Você não está assustado com isso, né, SG?”

“Não diria assustado. Estou apenas perplexo. Você não parece o tipo de pessoa que teria uma atitude dessas. E por que você fez isso? O que tinha acontecido?”

“Então. Meus pais ainda não sabiam que eu era gay. E eu havia terminado meu namoro há pouco tempo. Eu e o Fulano ficamos juntos por três anos, e ainda nos víamos, como amigos. Porém, no dia anterior ao acontecido, nós brigamos feio, de novo. É que… sabe, eu tinha traído meu namorado. Viajei para Florianópolis e lá rolou uma coisa estranha… e acabei ficando com um cara. Nós só nos beijamos e tal. Na volta, contei pro meu namorado. E, desde então, nossa relação nunca mais foi a mesma. Brigávamos muito, até que ele terminou comigo. Mas continuamos a nos ver, com frequência. E, depois da última briga, resolvi fazer o que fiz.”

Seus familiares e amigos ficaram chocados com a notícia. Ninguém esperava que Jô tentaria se matar. Seus pais ficaram preocupados, e começaram a demonstrar mais atenção. Souberam de sua homossexualidade. Conheceram o ex-namorado dele. Este até propôs reatar o namoro, dizendo que aquela traição era muito menor do que a falta que Jô faria. De um jeito dramático, as coisas ficaram melhores para Jô.

“E vocês reataram?”

Jô respondeu que não, de um jeito inconclusivo. Não entendi muito bem as razões. Mas as coisas ficaram mais claras. Jô queria era só curtir. Beijar. Transar. Sem compromisso. Viver cada dia como se fosse o último.

Ali, na Praça de Alimentação do piso Jurupis, vi que o rapaz sentado à minha frente, com um prato quase vazio de restos de estrogonofe, não seria o meu namorado. Fiquei a pensar sobre a plausividade da história.

Mas aí, constatei outra coisa.

Eu também queria aproveitar aquele dia, como se fosse o último.

Continua.

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comments

Expectativas são as maiores culpadas pelas nossas decepções… Aguardando a continuação… E na torcida para q vc tenha relaxado e curtido 😉

Xêro!

in.Constante

12/06/2011

Sim. E o pior é que sempre criamos expectativas.

SG

13/06/2011

condordo com o In.constante ai em cima, se vc não cria espectativas, não se magoa, se vc entra no jogo sabendo as regras, obviamente…

contudo, pelo q vc contou eu não vi q ele qria algo sem compromisso… mto pelo contrário
mas deu pra ver claramente q vc não qria mais nada com ele a partir desse momento…
dá pra ver q vc realmente ficou assustado…

Foxx

13/06/2011

Sim. Me incomodei. Nem tanto pela tentativa de suicídio, mas pela traição.

SG

13/06/2011